A cada dois dias, pelo menos um veículo de transporte coletivo se envolve em acidente de trânsito nas rodovias estaduais do Ceará (CEs). O dado é resultado de um levantamento feito pelo Departamento Estadual de Trânsito (Detran-CE) a pedido do jornal O POVO, que aponta um total de 852 sinistros com ônibus e micro-ônibus nas CEs entre janeiro de 2020 e março de 2026.

Ao todo, o período acumulou 628 acidentes com ônibus e outros 224 envolvendo micro-ônibus nas estradas cearenses.

Com informações até março deste ano, o levantamento demonstra um cenário parcial da segurança nas estradas cearenses. Não são contabilizados, por exemplo, os acidentes que vitimaram um time de basquete amador e um grupo de romeiros nos meses de junho e julho, respectivamente.

Segundo especialistas, um dos fatores que mais corroboram para esses acidentes é um eventual acúmulo de cansaço para o motorista.

Com viagens que percorrem centenas de quilômetros pelo Estado, os condutores tendem a passar um número elevado de horas à frente do volante, o que leva ao cansaço e diminuição da atenção e dos reflexos para reagir a imprevistos no trânsito.

“É muito importante que a empresa tenha um sistema de turnos em que o motorista não trabalhe em excesso, pois o cansaço é um dos fatores que costuma estar presente em sinistros envolvendo transporte coletivo. Uma boa escala, com motoristas descansados e bem treinados ajuda muito a evitar esses sinistros”, explica o doutor em Engenharia de Transportes, Flávio Cunto.

A manutenção dos dispostivos de segurança dos veículos também é um fator decisivo para evitar os acidentes ou amenizar os prejuízos.

Por quatro anos, Larissa Silva, 23, realizou o trajeto de Cascavel a Fortaleza via CE-040 para estudar e trabalhar, com uma distância pouco maior que 60 quilômetros.

Em todo esse período as viagens eram feitas por meio de ônibus e micro-ônibus, que segundo a publicitária, não dispunham de todas as ferramentas necessárias para o conforto e maior segurança dos passageiros.

Um desses itens era o cinto de segurança, que apesar de essencial para diminuir os riscos aos passageiros em eventuais acidentes, raramente estava disponível nos coletivos.

“Não tinha cinto de segurança. A gente vê muitos acidentes acontecerem e fica um pouco preocupado, mas enfim, o ônibus é o que tem para estar usando”, afirma Larissa.

Aliado a esses fatores está a situação das rodovias estaduais do Ceará. Uma pesquisa realizada em 2025 pela Confederação Nacional dos Transportes (CNT) analisou 30 trechos de CEs do Estado, dentre os quais apenas dois, nas CEs 040 e 155, tiveram resultado positivo.

A avaliação leva em consideração aspectos de geometria, pavimentação e sinalização da pista, atribuindo-lhe as classificações “péssima”, “ruim”, “regular”, “boa” e “ótima”.

Ambas as que tiveram resultado positivo ligam municípios da Região Metropolitana de Fortaleza (RMF), onde, conforme a Confederação, ficam centradas as vias em melhores condições do Estado.

Os locais de maior preocupação ficam no sertão do Ceará, como a CE-183, que passa pelos municípios de Cariré e Sobral, única no Estado a registrar condições “péssimas” e “ruins”.

“No Ceará tem muito vazio, então você passa horas sem ver uma cidade e se for de noite fica mal iluminado. Nesses pedaços de vazio, as estradas são piores. Quando chega mais perto de Fortaleza, a escada fica um pouquinho melhor. Entre a região ali de Juazeiro até as cidades mais ao Centro do Estado, por exemplo, fica um pouco pior a estrada”, conta a estudante de medicina Maria Alba, 22, que faz faculdade na Bahia e retorna ao Ceará de ônibus rodoviário durante as férias.

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