Os ‘hinos de facção’ são músicas compostas em homenagem a organizações criminosas, em grande maioria, feitas para prestigiar lideranças ou “tropas” desses grupos. Por meio dessas canções, alguns dos maiores criminosos do Ceará são retratados como protagonistas de narrativas de prestígio, luxo e admiração.
Essas músicas são encomendadas por integrantes de facções que pagam milhares de reais para que elas sejam escritas por MCs e DJs “famosos” e veiculadas em festas, vídeos, trends e plataformas musicais. Do outro lado dessa engrenagem, crianças e adolescentes reproduzem essas canções milhares de outras vezes, desenvolvendo sentimentos de pertencimento e fascinação.
Existe alguma alternativa a esse movimento que permita a livre expressão artística sem expor adolescentes e jovens ao crime? Foi em busca dessas respostas que a reportagem analisou perfis nas redes sociais, vídeos virais, músicas denunciadas pelas autoridades e conversou com especialistas no assunto, fontes sigilosas e jovens cearenses.
Para o doutor em sociologia e pesquisador do Laboratório de Estudos da Violência (LEV/UFC), Artur Pires, a criação de ‘hinos’ faz parte de um comportamento estratégico das facções que buscam “construir uma identidade coletiva”. “Não à toa, por exemplo, todo país, todo estado e até clube de futebol tem um hino”, compara o especialista.
É muito simbólico como a facção consegue penetrar na subjetividade e na construção identitária do jovem periférico.
As organizações criminosas encontraram no funk um espaço para ampla veiculação de narrativas criminais e um ponto de conexão com a juventude, construindo parte do que os especialistas entendem como ‘Narcocultura Digital’. Nas redes sociais, essas facções disputam “por meio de músicas, discursos e mensagens, quem tem mais armas, poder e prestígio”, comenta o pesquisador.
Para a professora do departamento de Letras da Universidade Federal do Ceará (UFC) e coordenadora do Grupo de Estudos em Linguística e Discurso Narrativo – GELDA/CNPQ, Sandra Maia, o funk tem escancarado uma realidade de violência extrema, que “vive ao lado” e que muitos brasileiros não aceitam enxergar.
Quem financia e quanto custa um ‘hino de facção’?
No Ceará, os ‘hinos de facção’ costumam ser encomendados e pagos pelos próprios líderes das facções criminosas, que contratam DJs e MCs famosos nacionalmente para dar vida às homenagens. Esse contato acontece normalmente por meio de mensagens e ligações, que são analisadas por oficiais de investigação.
R$ 10 mil a R$ 50 mil É a média de preço de um ‘hino de facção’, no Ceará.
Essas músicas são utilizadas como uma das principais ferramentas para demonstrar “poder e status dentro de uma comunidade”, afirma uma fonte sigilosa, em entrevista ao Diário do Nordeste. No Ceará, figuras de liderança — em sua maioria escondidas em comunidades do Rio de Janeiro — costumam contratar cantores cariocas para compor e gravar as músicas em estúdio.
Em nota enviada ao Diário do Nordeste, a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), afirmou que: “Por intermédio da integração entre trabalho ostensivo, investigação e inteligência das Forças de Segurança do Ceará, o estado registrou um aumento de 21,4% nas capturas em flagrante ou mandado por organização criminosa, durante o primeiro quadrimestre de 2026”.
O exemplo mais recente do sucesso de um desses hinos no Ceará é a música “Tropa do Alok”, banida recentemente das plataformas Spotify, YouTube, Instagram e TikTok, mas que já acumulava mais de 200 mil reproduções em apenas uma plataforma quando foi excluída.
A canção foi banida das plataformas digitais alguns dias após a prisão de um dos cantores creditados na composição, identificado como João Vitor da Costa Minervino, ou ‘MC Black da Penha’ — dono de outras músicas apontadas como hinos do Comando Vermelho (CV).
A equipe de reportagem apurou que o ‘MC Black da Penha’ teria afirmado às autoridades policiais que o valor pago pela canção variou entre R$ 10 mil e R$ 50 mil. Ainda segundo ele, a composição teria sido feita por um DJ cearense — que não está creditado oficialmente na música.
Legalmente, o cantor carioca foi autuado pelo crime de favorecimento ao domínio social estruturado — tipificado pela Nova Lei Antifacção (Lei nº 15.358/2026), também conhecida como Marco Legal do Combate ao Crime Organizado, sancionada em 24 de março de 2026.
20 a 40 anos É a pena prevista para o crime cometido pelo MC.
O crime de “promover organização criminosa” foi tipificado pela primeira vez em 2013, por meio do artigo 2º da Lei de Organização Criminosa (Lei nº 12.850/2013), que institui pena de três a oito anos de reclusão para o delito. Antes disso, essas músicas eram enquadradas apenas como ‘apologia’, que é um crime previsto no Código Penal Brasileiro, com pena de três a seis meses de reclusão.
Nos últimos seis anos, outros cinco MCs foram presos pela Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco), do Ceará, pela composição de músicas que enaltecem organizações como CV, GDE e TCP. São eles: MC Dym, MC Dick, MC PQD, MC GG e MC Fabuloso.
Fonte: DN






