O relatório final da Polícia Federal (PF), enviado recentemente ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, sobre o caso envolvendo o deputado federal Júnior Mano (PSB) e o ex-prefeito foragido de Choró, Bebeto Queiroz (PSB), traz detalhes de uma ampla investigação. A apuração tem como base a Operação Underhand, deflagrada em julho de 2025, que apura a atuação de uma organização criminosa suspeita de desviar recursos públicos federais, especialmente oriundos de emendas parlamentares, no Ceará.
De acordo com a PF, o grupo teria direcionado verbas públicas para municípios cearenses mediante pagamento de propinas, além de manipular processos licitatórios em benefício de empresas ligadas ao esquema. A suspeita é de que os contratos também tenham sido utilizados para financiar, de forma ilegal, campanhas eleitorais nas eleições municipais de 2024.
No relatório concluído em 29 de janeiro de 2026, ao qual O Otimista teve acesso, os delegados detalham que, durante o cumprimento de mandado de busca e apreensão no âmbito da operação, Eduardo Sales Sá Barreto Leitão, filho do prefeito de Fortaleza, Evandro Leitão (PT), foi encontrado no apartamento funcional de Júnior Mano, em Brasília.
Na decisão que autorizou a operação, Gilmar Mendes afirmou que as investigações sobre o mau uso de emendas parlamentares “revelaram um complexo esquema de desvio de recursos públicos municipais, estaduais e federais, associado à prática de crimes eleitorais”. A ação ocorreu em 8 de julho de 2025, quando a PF cumpriu 15 mandados de busca e apreensão em cinco cidades do Ceará (Fortaleza, Nova Russas, Eusébio, Canindé e Baixio) e também em Brasília.
Por volta das 6h da manhã daquele dia, Eduardo Leitão foi encontrado no imóvel acompanhado de Victor Lucas de Almeida Bitu Magalhães e Yvens Watila Oliveira da Silva, que se apresentaram como “amigos do parlamentar”.
No relatório enviado ao STF, os investigadores descrevem Eduardo como “filho de Evandro”; Victor Lucas como ex-secretário parlamentar; e Yvens Watila como empresário ligado a eventos patrocinados por prefeituras sob a gestão da família Mano. Segundo a PF, há indícios de doações indiretas e contratos que apontam proximidade com o núcleo político investigado. Watila é irmão do cantor Wesley Safadão, que também é citado no relatório em relação a pagamentos suspeitos de atrações artísticas.
Agenda
Durante a operação, os agentes apreenderam uma agenda atribuída a Eduardo Leitão, contendo “anotações manuscritas com nomes de pessoas politicamente expostas”, além de folhas impressas com os títulos “urgência de pagamentos” e “novos contratos”.
Para a PF, os registros podem indicar pagamentos prioritários de interesse do grupo, “especialmente considerando que Eduardo é filho do prefeito de Fortaleza, Evandro Leitão, que se mostrou próximo de Bebeto Queiroz”.
O Otimista teve acesso a trechos do material transcrito. As anotações mencionam “urgência de pagamentos” em supostos empenhos que somam R$ 11,5 milhões, envolvendo SMS e Sepog, além de “novos contratos” nas áreas da SME, SMS e AMC, totalizando mais de R$ 22,5 milhões.
Na estrutura da Prefeitura de Fortaleza, as siglas se referem às secretarias municipais de Saúde (SMS), Planejamento, Orçamento e Gestão (Sepog), Educação (SME) e à Autarquia Municipal de Trânsito e Cidadania (AMC). Eduardo Leitão não possui cargo oficial na gestão municipal.
Também foram apreendidos R$ 50 mil em espécie, dentro de uma sacola atribuída a Victor Lucas, que, segundo relato, seria utilizada para “comprar comida”, além de documentos, pendrives, tablet, smartphones e um celular de modelo simples, sem tecnologia avançada, “indicando possível uso para comunicações restritas”, conforme a PF.
Na mesma decisão, Gilmar Mendes determinou o bloqueio de até R$ 54 milhões em bens de pessoas físicas e jurídicas investigadas.
O silêncio de Evandro
O Otimista procurou a Prefeitura de Fortaleza, o prefeito Evandro Leitão e Eduardo Leitão para esclarecer pontos como: a atuação de Eduardo em contratos públicos; a origem das anotações; se os valores registrados correspondem a transações reais; eventual papel como intermediador; e a relação empresarial com a família de Wesley Safadão. Até o fechamento desta matéria, não houve resposta aos questionamentos.






