Pais e responsáveis que pretendem matricular os filhos adolescentes em escolas da rede estadual do Ceará têm enfrentado impasses para efetivar o processo. Eles relatam falta de vagas em instituições em bairros próximos e inconsistências em orientações da Secretaria da Educação (Seduc).
A decisão de matricular o filho em uma unidade estadual pela primeira vez tem trazido preocupação à rotina de Maria José de Sousa, 44. A uma semana do início das aulas, ela ainda não conseguiu uma vaga para o adolescente.
“Ele estudava em um colégio particular, mas pro ensino médio resolvi colocar no público estadual. Na matrícula online, a gente escolhia três opções de escolas perto de casa. Ele não foi sorteado em nenhuma”, relata a promotora de vendas.
Agora, ela aguarda a disponibilização de vagas que “sobraram” nas instituições da rede, a chamada matrícula direta. “Disseram que ia abrir, mas até agora não abriu”, reclama, afirmando que se vê “sem saber o que fazer” diante da indefinição.
“Moro no Monte Castelo. Se não tiver sobrado vaga próxima, vou ter que colocar ele num bairro qualquer. A gente não pode mais escolher, porque ele não foi sorteado. Pelo jeito, não vai ter vaga. Não estão dando clareza sobre como vai ser isso”, aponta Maria.
Situação semelhante é enfrentada pela zeladora Jane Carla, 45. Ela até conseguiu uma vaga para o filho de 14 anos ingressar no 1º ano do ensino médio – mas à noite e em um bairro distante do Conjunto Esperança, onde mora.
“Participei de três sorteios: na primeira e na segunda apurações não fui sorteada, na terceira fui, mas pra um colégio à noite. Não quero isso. Meu filho sempre estudou durante o dia, seria uma quebra grande de rotina”, frisa.
Entre os temores em relação ao turno, estão ainda questões de segurança pública. “Estou pensando no que fazer, mas estou sem saber. Me aconselharam a ir ao Conselho Tutelar, porque ele é menor, não tem como estudar à noite. Mas estou vendo”, desabafa.
Ambos os relatos são de estudantes novatos, mas o problema também afeta quem já estava na rede pública. A filha de Joseane Silvestre, 39, tem 14 anos e estudava em uma escola municipal do bairro onde mora. Com a migração para o ensino médio, buscou uma vaga na rede estadual – até agora, não conseguiu.
“Fui até a Seduc. Lá fui informada que não tinha possibilidade de minha filha estudar perto de casa, porque não tinha vaga. Só tinha no Centro ou dentro de bairros que vivem em conflito com o meu. Ou à noite”, relata a mulher, que mora no entorno do bairro Castelão.
Joseane afirma ainda que, ao buscar informações na Seduc, chegou a ser orientada a “buscar a Justiça e conseguir uma liminar” como única forma de matricular a filha em escola próxima de casa.
“O direito da criança é ter uma escola, não pode ficar sem estudar. E a gente sempre preza que seja perto, pra gente acompanhar. Se não surgir vaga, ela vai ficar perdendo aula. As matrículas no aplicativo encerraram e minha filha está sem vaga”, desabafa.
O que diz a Seduc
As queixas surgem no início do ano letivo de 2026, ano em que a gestão estadual busca assegurar a oferta de ensino médio em tempo integral em 100% das escolas públicas do Ceará. A meta foi anunciada ainda durante a gestão de Camilo Santana (PT) e retomada como compromisso de campanha do atual governador, Elmano de Freitas (PT).
Questionada sobre uma possível relação entre os problemas relatados e esse processo, que tem exigido reorganização da rede estadual, com reformas, redistribuição de vagas e outras adequações, a Seduc afirma que não há ligação.
O Diário do Nordeste procurou a Seduc, às 15h de segunda-feira (26), para saber o que está ocasionando esses problemas e como a secretaria pretende solucioná-los, sobretudo em relação a adolescentes que estão sendo lotados em instituições longe de casa e em turnos incompatíveis com as possibilidades das famílias.
N mesmo dia, a Seduc publicou uma nota nas redes sociais assegurando que “todos os jovens serão atendidos na rede pública estadual de ensino na Capital e no Interior para o ano letivo de 2026”.
O processo, segundo a Pasta, foi dividido em três etapas:
- Matrícula de estudantes veteranos: apenas confirmação da matrícula na mesma escola, pois a vaga já foi assegurada;
- Remanejamento interno (solicitação de vaga em outra escola) e externo (alunos vindos das redes municipais);
- Matrícula de novatos: novas matrículas na rede estadual.
A Seduc informa ainda que, até as 15h desta quarta-feira (28), “o sistema de matrícula estará disponível para os pais ou responsáveis que já realizaram cadastro no período previsto no edital e cujos alunos não foram contemplados nos processos seletivos”, e também para os que não realizaram o cadastro.
Fonte: DN






