A prisão de Alessandro Arantes, aos 42 anos, em Batatais, no interior de São Paulo, na noite de 25 de agosto de 2024, traz este histórico contido no boletim de ocorrência que registra o flagrante, e foi noticiada sem maior destaque na época. Com ele, a polícia ainda encontrou um vídeo gravado instantes antes, comemorando o incêndio e assumindo a autoria. A megaoperação revelou que integrantes do PCC se infiltraram em todo o setor de produção de cana-de-açúcar. Também ameaçaram empresários e fazendeiros no interior de São Paulo para vender suas propriedades, conforme apontam as investigações do Ministério Público de São Paulo (MP-SP) e da Polícia Federal.

Agora, policiais e promotores buscam aprofundar as provas sobre as possíveis ligações do PCC com a onda de incêndios criminosos – das quais a prisão de Arantes e suas declarações são mais um indício, de acordo com fontes ligadas às investigações ouvidas pela Gazeta do Povo.

“Onda de incêndios criminosos devastou milhares de hectares nos canaviais paulistas e deixou no rastro um prejuízo bilionário para o setor sucroalcooleiro”.

A suspeita é reforçada pela Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp). “A forma que estava sendo colocada, a forma que ocorreu ano passado sobre esses incêndios criminosos, toda essa pressão que ocorreu deles jogarem o preço embaixo e ser obrigado a vender, criou realmente um clima muito ruim no setor produtivo”, afirmou nesta semana o presidente da entidade, Tirso Meirelles, ao Agro Estadão.

O caso ganha nova importância sob a luz da megaoperação conjunta de Polícia Federal, Receita Federal e Grupos de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) dos ministérios públicos estaduais e federal, com apoio das forças policiais estaduais — que expôs no fim de agosto os vínculos bilionários do PCC com a Faria Lima e a extensão da infiltração da facção criminosa sobre o setor de combustíveis no país.

De acordo com ele,  é impossível um raio de 250 quilômetros, entre Ribeirão Preto e Batatais, no interior do estado, ter pegado fogo simultaneamente. “Isso foi colocado, foi proposital”, declarou.

Os incêndios simultâneos com suspeita de participação do PCC atingiram centenas de propriedades e destruíram pelo menos 80 mil hectares quadrados de canaviais no ano passado, deixando um prejuízo em torno de R$ 1 bilhão ao agronegócio, de acordo com estimativas do governo do estado de São Paulo. Pelo menos 68 pessoas foram vítimas das queimadas, sendo 66 feridos e 2 mortos.

O interior paulista chegou a ter 24 locais de incêndio simultâneos de grandes proporções na manhã do dia 24 de agosto de 2024. Ao todo, 48 municípios foram diretamente afetados. O estado registrou 3.482 focos de incêndio no mesmo mês. A região de Ribeirão Preto, capital do agro paulista, foi a mais afetada durante a onda de queimadas criminosas no ano passado.

Ao todo, em dezembro do ano passado, 39 pessoas tinham sido indiciadas por suspeita de relação com os incêndios pela Polícia Civil de São Paulo em todo o estado, em pelo menos 107 inquéritos instaurados para investigar as causas do fogo, de acordo com a Secretaria da Segurança Pública do estado.

Arantes foi um dos primeiros entre os 19 presos em flagrante pela polícia paulista durante a crise dos incêndios, em agosto do ano passado — dias antes dele, um suspeito havia sido preso em Porto Ferreira e outro em São José do Rio Preto. Outros seguiram-se depois. Ele foi denunciado pelo MP-SP por incêndio, e pode pegar até seis anos de prisão pelo crime se for condenado.

Agora, a suspeita da polícia é de que Arantes — que já possuía passagens pela polícia por furto, roubo e homicídio, seria usuário de drogas e teria problemas psiquiátricos, além de supostamente viver nas ruas na época do crime — possa ter sido utilizado por integrantes da facção criminosa PCC para começar um dos incêndios criminosos em troca de alguma recompensa, mesmo sem ser ligado ao grupo. O processo dele ainda tramita na Justiça e o advogado do réu não foi localizado pela reportagem.

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